Disseminada a informação pela agência LUSA relativa ao relatório da Procuradoria Europeia, ficou evidenciado o que eu já tinha mencionado neste post aqui. Em entrevista à referida agência, o procurador europeu português, José Ranito, responsável pela PE em Portugal, diz que a capacidade de resposta de Portugal na Procuradoria Europeia “está esgotada” e mostra-se preocupado com o aumento de 47% nas pendências em apenas um ano e com as investigações paradas nos órgãos policiais. O procurador referiu que há apenas duas acusações concluídas em quatro anos e nenhuma decisão judicial ainda transitada em julgado, apesar de uma condenação em primeira instância. “Há investigações que foram abertas e que estão a ser transferidas de ano para ano e sem solução, com atrasos significativos nas investigações. Aliás, isto está a ser notado nos exercícios de monitorização dos nossos processos no Luxemburgo e, portanto, está a ser notado o atraso das investigações portuguesas. E é algo que, na verdade, eu creio que temos que refletir seriamente. (…) Estes resultados, para mim, preocupam bastante”, admitiu José Ranito.
Os atrasos nas investigações em Portugal, explicou o procurador, prendem-se também “com a instabilidade nas equipas de investigação”.
Muitas vezes, disse, são retiradas dos processos para outras diligências noutros processos, uma situação que levou o procurador a insistir na importância de equipas dedicadas e da formação específica das polícias, que permite uma colaboração mais célere com os outros países.
Os alertas já foram deixados aos organismos que cooperam com a EPPO, nomeadamente a Polícia Judiciária, mas também, e mais uma vez, às tutelas políticas relativamente à falta de meios humanos e técnicos necessários para uma maior celeridade, tendo José Ranito frisado a este propósito que não é comportável continuar a ter apenas dois oficiais de justiça dedicados às duas delegações em Portugal, um em Lisboa e outro no Porto.
“É notório que a capacidade de resposta está esgotada”, disse o procurador, que aguarda pela publicação da portaria que vai concretizar o reforço de meios, “praticamente quatro anos depois” de criado o organismo europeu.
“Na verdade, temos sido tratados um pouco como um parente pobre, e eu compreendo que a escassez de oficiais de justiça em todo o sistema de justiça possa estar a condicionar a resposta, mas temos que ser criativos e temos que arranjar outros meios alternativos, sob pena de aquilo que se pretendia com a dita cooperação reforçada se perder”, alertou.
José Ranito sublinhou também a aposta da EPPO na linha orientadora do organismo para recuperação de ativos e de que “o crime não pode compensar financeiramente”, referindo os 1,13 mil milhões de euros concedidos em autorizações judiciais para congelamento de bens.
A propósito das alterações em Portugal ao regime da perda alargada de bens, o procurador europeu manifestou concordância, referindo o alinhamento do país com as normas europeias.